Gula
Desejo insaciavel pela comida e bebida - excesso
A gula é um tema complexo e comumente mal compreendido. Na maioria dos casos, é vista como o descontrole de limites e do equilíbrio no ato de alimentar-se e beber, permitindo com que o homem tenha neste ato um caminho para o prazer de forma desregrada. Suas ramificações vão além do prato, estendendo-se até nossa relação com Deus, em nos mesmos e com o próximo.
É um pecado adquirido não apenas por causa do excesso físico em comer ou beber, mas também pela ansiedade exagerada e sem controle gerada em relação a comida. A gula não deve ser tratada como um mero pecado, o que não é verdade. É um pecado grave, pois leva a vários outros. Devemos lembrar que a gula também inclui o consumo de bebidas alcoólicas, o que a maioria das pessoas se esqueceu ou não tem conhecimento. Então consumo excessivo de álcool, vem a ser a causa de muitos dos pecados mortais da gula. Embriagar-se é um pecado mortal. A Palavra de Deus nos mostra uma advertência solene e terrível: “os bêbados […] não herdarão o Reino de Deus” (1 Coríntios 6:10). Santo Tomás de Aquino também nos lembra que "beber vinho conscientemente até a embriaguez é um pecado mortal" e ele o explica desta forma:
No mesmo patamar, deparamos com o uso de drogas, sejam a droga forte ou fraca, legal ou ilegal, coloca em risco de cometer todos os tipos de pecados, portanto, seu consumo é um pecado grave em si mesmo. Também, as drogas não permitem o consumo moderado, porque sempre tem o efeito de alterar a razão, por isso seu uso é pecaminoso.
Contemporaneamente, na sociedade as pessoas mais bem-sucedidas até os menos privilegiados, elas deixam evidente que a gula é mais popular que no passado. Tornou-se um pecado rotineiro e aceitável, deixada de ser vista como um mal. Mas um mal que gera serias consequências. Basta observar a epidemia da obesidade que assola o mundo. Com isso, os valores e costumes passaram a serem substituídos pela medicina, ao invés de culpa ou responsabilidade por esse vício grave – Gula. Surgiu também a anorexia e a bulimia que, embora exijam tratamento médico e psicológico por serem distúrbios sérios, revelam no campo espiritual a distorção profunda da nossa relação com o corpo. Modificar o corpo de forma voluntária e consciente, seja pelo excesso ou pela privação destrutiva, fere a santidade do templo de Deus.
Manifestação
Excesso na quantidade:
o indivíduo consume alimento ou bebida além do necessário. Ansiedade pela comida:
procura constantemente atender seus desejos nos alimentos. Exigência excessiva:
ignora a humildade, procurando incontrolavelmente por comidas caras ou sofisticadas. Desobediência ao jejum:
Ignorar práticas da igreja e o jejum. Negligência Social:
Consumo exagerado sem consideração aos necessitados ou o desperdício de mantimentos. Idolatria:
Nosso corpo é o templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6,19), devemos cuidar dele, um ato de gratidão e solidariedade. Quando o corpo passa a ser o centro da atenção, a paz interior dependera do que comemos ou deixamos de comer, quantos quilos perdemos ou ganhamos. Deixamos de considerá-lo um templo e passamos a contemplá-lo como um ídolo. Redes Sociais:
A gula não é manifestada em apenas comer em excesso, mas a necessidade de controlar tudo. A ortorexia - obsessão patológica por consumir apenas alimentos saudáveis. Onde os influenciadores pregam dietas extremas, corpos esculpidos, alimentos “sem pecados” (sem açúcar, sem glutem, sem gordura....), fixação admirada pela sociedade, mas que pode ser espiritualmente perigosa:
- Gerando julgamento com base em seu corpo ou alimentação
- Tira a liberdade interior.
- Cria ansiedade e culpa.
- Retira a alegria e gratidão pelas coisas simples.
Comportamento típico de uma pessoa dominada pela Gula
O indivíduo dominado pela gula evidencia-se pela incapacidade crônica de impor limites ao desejo de consumir alimentos e bebidas. Trata-se de um descontrole profundo que influencia diretamente as áreas física, mental, social e espiritual da vida. Guiado pelo excesso e pela falta de equilíbrio, o guloso abre as portas para o vício, que é a forma mais extrema desse pecado. Esse desejo por prazer imediato frequentemente se estende para o abuso de substâncias e do álcool, gerando dependências que destroem a saúde e os relacionamentos.
“Não estejas entre os que se fartam de vinho, nem entre os que se inflam de carne . Porque o beberrão e o comilão cairão em pobreza; e o sono cobrirá de trapos o homem.”
Desse hábito alimentar descontrolado, surgem graves consequências. Fisicamente, abre-se caminho para a obesidade, diabetes, hipertensão e sobrecarga dos órgãos. No campo emocional, a comida passa a ser usada como um anestésico bucólico para compensar frustrações, gerando ansiedade e compulsões. Ocorre, então, uma severa inversão de valores: o prazer da mesa passa a ser o centro da vida, substituindo a convivência familiar, o desempenho profissional e as responsabilidades espirituais. As principais características do guloso são:
- Excesso crônico: não se contenta com o necessário; deseja sempre mais, comendo e bebendo muito além da saciedade.
- Ansiedade pelo prazer imediato: demonstra extrema dificuldade em governar os próprios impulsos, priorizando a satisfação sensorial do momento.
- Desordem e falta de medida: rompe com a harmonia natural da alimentação, transformando o ato de nutrir-se em um espetáculo de exagero.
- Desvio de valores: coloca o apetite físico acima das virtudes e do alimento espiritual, sufocando a temperança e a moderação.
“O fim deles é a perdição; o deus deles é o ventre , e a glória deles é para confusão deles mesmos, que só pensam nas coisas terrenas.”
Consequentemente, o homem dominado pela gula afasta-se das práticas de disciplina e autodomínio. Ele frequenta os ambientes religiosos, reuniões e confraternizações comunitárias normalmente. No entanto, por ser uma compulsão física visível, ocultar a gula é uma meta difícil quando a mesa é servida. Para camuflar o vício, muitos tentam disfarçar participando zelosamente das atividades litúrgicas, mas revelam o descontrole diante da fartura.
Para proteger sua imagem de "disciplina espiritual", o guloso costuma usar justificativas socialmente aceitáveis, como “estou apenas aproveitando a comunhão” ou “estou comendo para não desperdiçar”. Essa encenação tenta encobrir um coração que perdeu a virtude da temperança. Ele busca manter as aparências nos bancos da comunidade, mas é incapaz de impor limites aos apetites da carne.
Jesus Cristo alertou severamente sobre esse comportamento de aparências ao dizer:“E olhai por vós mesmos, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia.”
Por consequência, rituais externos não mudam o comportamento de quem transferiu o altar de Deus para o próprio ventre. A verdadeira transformação deve vir do coração, resgatando a sobriedade e o domínio próprio. Deus conhece as nossas fomes mais profundas e sabe quando o homem se tornou escravo daquilo que deveria apenas alimentá-lo.
Conclusão:
A Tradição Católica e a Pastoral ensinam um guia prático para o viver e ter uma vida espiritual equilibrada. A virtude oposta a gula não é a “dieta”, mas a temperança. Essa é a capacidade de usar corretamente os bens criados por Deus com ordem, gratidão e liberdade. Não se trata de privar tudo, mas de não ser escravo. Não julgar pela aparência física (magro ou obeso), ter um olhar benevolente, pois a misericórdia começa à mesa. A gula mudou de estratégia e comportamento, manifestando-se não apenas no ato de comer ou beber em excesso, mas na necessidade de controlar tudo, no medo e na idolatria. Nosso Senhor Jesus nos convidou a comer com gratidão, jejuar com alegria, viver com equilíbrio e considerar o nosso Corpo como um templo e não como uma escultura de academia. Mostrando-nos que cada refeição deve ser considerada uma ação de graça cotidiana, não de idolatria. Porque a verdadeira saúde vem da alegria e paz e não de uma dieta ou “clean eating” (consumo de alimentos naturais evitando aditivos, açucares e alimentos processados) - Mas de paz interior, um coração puro.
Em suma, combater o mal da Gula, consiste em praticar o jejum e a abstinência como exercícios espirituais, cultivando a virtude da temperança e autocontrole. Evitar o desperdício lembrando do próximo valorizando o sentido de ser solidário. E sobretudo considerar o alimento como um dom de Deus para sustentar o corpo e fortalecer a alma.